QUEM SOMOS?
Os caminhões-caçamba descem abastecidos
da Serra do Logradouro, entupidos de calcário
até à tampa e desfilam em comboios,
num branco fastasmagórico, através do asfalto,
rumo à estação ferroviária de embarque,
em Crateús.
Todos num silêncio insuspeito.
Uma mudez estranha que não suscita
em ninguém a mínima vontade de interpelação.
O que nos levam, além do calcário?
O que nos trarão?
Ainda há pouco tempo, éramos ingênuos
catadores de rutilo, ou rutila, ou rútilo.
Famílias inteiras que se tornaram mineiros,
e se embrenharam por entre xique-xiques,
cavoucando embaixo de moitas e favelais,
despindo os carrascais,
à cata de pedras pretas.
Era o esplendor da “rutila”.
Todos. Homens, mulheres, velhos e crianças,
de posse de sacos ou latas, acocorados pelos monturos,
revirando, vasculhando, até cada um
ser dono de um punhado de riqueza,
que apenas nos beneficiou com influências
de época para servir de nome ao clube da cidade
e se chamar “mina” o lugar
de jazidas mais efervescentes.
Sempre houve uma estranha palpitação mineral
por aqui, e por dentro de nós.
E certamente que ainda há.
Creio que fomos todos concebidos
de uma cumplicidade sibiótica
de minerais e espinhos,
e que por isso nos fizemos tão arraigados,
e outras vezes inquietos,
tão ingênuos e ao mesmo tempo tão argutos,
com colorações e hábitos
a mais do limite da diversidade humana,
com aparências que “farejam preguiças”,
mas só farejam. Pois na avidez do lucro,
impelidos pela coceira de mineiros,
tornamo-nos capazes da mais laboriosa faina.
Enfim, consigo atinar a razão de tantas
sinuosidades de postura e espírito,
de aspereza e transparência.
O cateterismo de tantos minerais
infundiu-nos e forjou o calibre e o tônus.
Nossos corações são de cristais e quartzos.
O temperamento duro e acerbado adveio,
a nós, em cheio, das águas da vertente
das minas de rutilo, encharcadas
pelo Serrote do Vinagre.
Eis o que somos.
Por Antonio Menezes