FINAL DO ANO - Vera Pedrosa
20/11/2007

Por: VERA PEDROSA
 

Assusta-me a velocidade em que corre o tempo. Parece-me que ontem eu estava comprando o material didático do meu filho para um novo período escolar que se iniciava. Quando menina contava o tempo em intervalos maiores. A referência era a copa do mundo. Ficava pensando onde estaria e o quê faria quando chegasse aquele evento. A maioria dos desejos não se concretizou. Hoje, não faço mais muitos planos. Talvez uma defesa inconsciente contra a frustração. Quando os faço, projeto-os para no máximo um ano. A vida tem as suas próprias regras: somos tolos ao pensar que podemos prever o futuro. De qualquer forma, o final do ano nos remete a reflexões. Será que poderíamos ter feito diferente? A sensação é de que não há equivalência entre o que deveria ter sido realizado e o que efetivamos. Sempre entramos em débito no ano que se inicia, contando que no próximo vai ser diferente. Faremos as viagens pretendidas, retomaremos às amizades esquecidas, leremos os livros que se avolumam na estante, daremos atenção às pessoas queridas. Adiamos, adiamos e adiamos. De repente ficamos perplexos e percebemos que a vida não deve ser preterida. O tempo não espera! Tudo tem que ser feito a seu tempo. Viajar hoje para a Disney não teria a mesma significância que quando da puberdade. O olhar seria diferente. Não haveria a magia, o encantamento, a fantasia daquela fase. O problema é que temos a ilusão do eterno. Sempre contamos com o tempo a nosso favor. Deveríamos ter sempre em mente a imagem da ampulheta: o escorregar fugidio da areia, sem nenhum obstáculo a se interpor entre suas duas metades, mas isso não acontece e continuamos deixando para adiante aquilo que poderíamos fazer hoje, privando-nos, em grande parte, da chance de realizá-los. Geralmente os acontecimentos graves nos tiram da letargia do dia-a-dia. Ao perdermos um ente querido tomamos consciência da nossa finitude e tentamos incrementar a nossa vida. Damos uma acelerada, no entanto poucos dias depois retornamos à rotina. Creio que o pior de tudo é quando nos damos conta de que optamos por decisões completamente equivocadas, estas são irreparáveis. Tenho comigo uma certeza: deste tipo de arrependimento não me penitencio e não me penitenciarei. Fiz as escolhas que me eram as mais apropriadas no momento em que deveriam ser tomadas. Não padeço de sentimento de culpa. Arrependo-me, entretanto, de não ter saído pelo mundo a fazer descobertas, a conhecer pessoas, costumes, sabores, odores... Ainda tenho tempo, eu sei. No momento, o que me falta é coragem. Tenho medos, irracionais, quiçá, mas os admito - medo da violência, medo de doenças, medo da ingratidão. Busco ansiosamente motivação para desbravar novos horizontes, driblar o tempo, embrenhar-me na vida, embebedar-me de felicidade no “reveillon” que se aproxima, nem que seja com o barato champanhe (ou será espumante?) SANTA FELICIDADE.

Vera Pedrosa

 
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