A QUEDA DO BURRO - ANTONIO MENEZES
18/02/2008

Por: ANTONIO MENEZES
 

  A QUEDA DO BURRO

                  João Grilô, amansador de burro brabo e homem forjado no sertão, achou de se descuidar justamente em lombo de burro manso, e numa quedinha besta, quebrar uma perna.

Mas para João Grilô, que até já provara veneno de cascavel, uma perna quebrada não ia ser coisa de outro mundo. Eram só alguns dias de descanso, esperar o osso emendar, e tocar a vida. A condição era pouca, mas não haveria de passar fome.

Enlaçou a perna com talos de carnaúba e se bandeou para o hospital. Sem muita demora, voltou para o sertão ainda no mesmo dia, entubado de gesso até à cintura, com a recomendação de que deveria ficar assim por uns seis meses.

Achou muito exagero, mas se prontificou com o doutor.

No outro dia bem cedo, parou um sujeito em frente de sua casa, bem vestido, uma bolsa a tiracolo, estacionou a moto e perguntou por João Grilô.

- É este seu criado.

- Pois eu vim até aqui só para falar com o senhor. Respondeu o homem, apertando-lhe a mão.

Em poucas palavras, deu ciência ao João de que ele poderia ganhar um bom dinheiro com aquela perna quebrada, e que bastaria assinar alguns papéis. Dali em diante, não se falaria mais em queda de burro. Era só confiar nele e dizer que caiu de moto. Tudo estaria arranjado.

- Mas tem uma coisa, – interrompeu o João – eu nunca tive moto!

Disse-lhe o sujeito como seria feito. Não implicava possuir moto. Caiu de moto e pronto. O resto era com ele. E o dinheiro era coisa certa.

- E de onde vem esse dinheiro?

- Do Governo. É dinheiro que não tem fim.

O João ficou pensativo. Aquela conversa de dinheiro do Governo, na frente da mulher e dos meninos! E balançou a cabeça, rejeitando a proposta.

- Isto não dá pra mim. Vou dispensar. Eu caí de um burro e quero continuar dizendo até morrer que caí de um burro.

O sujeito perseverou, enfeitou no palavreado, mas bem se viu que não conhecia a João. Não tinha acordo. Aquilo estava cheirando à ladroagem. Não tinha acordo.

Mas o infortúnio nunca vem a conta-gotas. Mais tarde, sem a presença dos meninos, a mulher o advertiu do desmastreio em que se encontravam. Lembrou-lhe as palavras do doutor. “Seis meses parado”.

- Acorda homem! Tem lá mais ninguém certo neste mundo! Onde tu pensa que vai dar com essa inteireza toda? Quem chegar primeiro é o dono da botija. E o rapaz disse que vai ser tudo como pede a lei. Tu não é o primeiro e nem vai ser o último. Quem vem botar feijão no nosso fogo?

Mas aquilo não estava direito. Algo não fechava muito bem. E ninguém poderia lhe convencer de que aquela estória não era ladroagem. Ouvira falar de muito malfeito neste mundo, de muito desgoverno, e sempre conservara distância. Mas batendo a sua porta, convidado para compartilhar de estória errada, era outra coisa. E só faltavam cinco anos para se aposentar!

Ficou o resto do dia pensativo, distante. Até arriscou descumprir as ordens do doutor e quis sair de casa. Não deu. E em cada canto da casa ficaram ecoando as palavras do sujeito. “Era dinheiro na certa”. “É dinheiro que não tem fim”. “Dinheiro do Governo”.

Era o mesmo que fazer ajuste com o diabo. Isso sim. Uma vez errado o caminho, metido em ladroagem, não tem mais retorno.

E os meninos viram tudo! Que pensavam dele agora? Um frouxo. Decerto que um frouxo. Perder um dinheiro daquele, numa condição daquela, na porta de casa!

Mas era uma ladroagem. Definitivamente, era uma ladroagem, e no final aquele dinheiro iria faltar no bolso de quem teria o direito nele.

- Amanhã eu passo por aqui de novo. O senhor pense melhor. - Foi assim que se despediu o sujeito.

Teve sede. Gritou pela mulher. Uma demora sem fim para lhe trazer aquela água. Nem esperou para receber o copo. Onde estariam os meninos?

Quis maldizer aquele burro lerdo. Por Deus! Não foi para passar por aquela provação que chegou até ali como certo.

Lembrou-se do João Teodoro, o seu primo. Honestíssimo e lealíssimo. Homem com apenas um defeito: não dar o mínimo valor a si próprio. Sempre o ouviu dizer que a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro. Talvez haja herdado dele esse desvalor de si também, para perder tanto tempo avaliando o que qualquer um toparia sem hesitações.

Ainda hoje não consegue compreender a retirada inopinada de seu primo de Itaoca, no outro dia, ainda bem cedo, depois de ser nomeado delegado.

- Mas primo, agora que você está de-le-ga-do?

- Justamente por isso. Respondeu-lhe o primo. Terra em que João Teodoro chega a delegado, eu não moro.

Foi-se como um homem de consciência e até hoje não se tem notícia dele. E assim João Grilô quis ser visto também. Sabe que a consciência de um homem é um terreno perigoso, que um dia vai ser tentada. Mas não esperava que o seu dia chegasse daquela forma.

Foi uma noite tormentosa. Não conseguiu definir o que mais lhe incomodava, até amanhecer.

Deu ordens aos meninos, refez-se da fadiga noturna, e sem comentar o acontecido do dia anterior, sentou-se no mesmo lugar e ficou a olhar apreensivo para a estrada.

Nunca concordara com o seu primo em um ponto: não abandonaria o lugar, e nem venderia a consciência, mesmo que tudo parecesse se acabar, como fez João Teodoro, ao concluir que Itaoca não tinha mais homem para qualquer conserto ou arranjo possível, e fazer a trouxa. Largou tudo.

O rapaz estacionou a moto e ouviu de João Grilô, apontando para a estrada:

- Nem se dê ao trabalho de se apear da moto. Não faço acordo com ladrão. Pode voltar no mesmo rasto de onde veio. Quero morrer dizendo que caí de um burro.


Antonio Menezes

2008

 
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