Foi sabido que determinado concorrente à casa do povo descobriu em sua fazenda um veio de minério de calcário, e teve a idéia de explorar a bendita pela conquista de votos.
Ora, ora. Uma mão lava a outra. Ninguém precisava saber. Tinha muita casa necessitando de reboco. O dinheiro andava difícil. Enfim, estava feito. Naquela candidatura de 1996 não meteria a mão no bolso. A lenha estava lá mesmo, era só tacar fogo nas pedras, preparar a cal e pôr o pé na estrada.
Identificar eleitores ávidos por uma visitinha, estabelecer o contato e fechar o negócio.
Foi assim, e em pouco tempo a notícia da empreitada do cidadão foi sendo conhecida de todos, e houve até gente desfazendo o reboco velho de suas casas só para garantir um novo. Era só no que se falava. A caieira do homem ia ser um sucesso! Bastava esperar a hora de ser cunhada a moeda da vez e promover a sua circulação no momento ideal, quando a disputa se tornasse acirrada e o eleitor não fosse peça de ninguém.
Depois de tanto suportar promessas descumpridas e de ver o negócio lucrativo em que se tornou a vereança, o eleitor achou por bem não se comprometer tanto e se reservar a prometer o voto.
E por mais que as advertências e proibições da lei previnam o contrário, há quem ainda prefira o modelo tradicional da troca ou do favor, a despeito das recomendações democráticas e da liberdade de consciência de cada um.
Por aqui, o voto, antes de ser sagrado, sempre teve e sempre terá um preço, e na falsa imagem de poder levar alguma vantagem, de extrair o que quer que seja de um ou de mais candidatos, alguns eleitores até nem se dão mais ao trabalho de açoitar portas.
Sentam-se e esperam as visitas. Com certeza, mais de um candidato irá esbarrar em sua porta, e se enfiará na sua cozinha para demonstrar a simplicidade e a humildade do homem que veio implorar uma ajuda, e traiçoeiramente se despe e se torna a figura mais infeliz, despojada e caridosa que a humanidade já pode conceber, para então poder, com astúcia, amarrar um acordo que só irá favorecer o lado do negócio sujo do voto.
Irei chamá-lo de João, o cidadão. Pois João, o cidadão, tendo a moeda da vez cunhada e amontoada lá na fazenda, esperou pela hora em que a disputa começou a ferver, e se encaminhou para uma determinada rua carente, escolhendo cuidadosamente as casas que ainda se encontravam em preto.
Deleitou-se diante de tanta miséria e agradeceu a Deus por ainda haver tanta gente necessitada. Era tudo de que mais precisaria. Mais e mais gente necessitada para poder aplicar-lhes a costumeira apostasia eleitoral.
E João, o cidadão, em meio as suas peregrinações noturnas, bateu à porta do Zé, o do povo, e mal se sentou já foi lhe mostrando a proposta na cara.
“Neste ano, a minha moeda é o cal. Eleitor meu não irá morar em casa sem reboco. É o cal, e tá dito”.
Vai daqui, vai dacolá, e João, o cidadão, retira um pedaço de papel do bolso e nele rabisca alguma coisa, estendendo em seguida ao Zé, o do povo.
“Esteja tal dia, tal hora, em tal lugar, apresente essa ordem a fulano. Não estou pra brincadeira, e a moeda é forte. Vou lhe enviar quarentas quartas de cal.”
Eita, que João, o cidadão, homem honrado e honesto só até ali. Era cal até para o piso.
Zé, o do povo, calculou ligeiramente uma sobra pra mais de dez quartas. Ia dar negócio para o alpendre da mulher, lá na cozinha.
Mas Zé, o do povo, não contava com um detalhe que o deixou decepcionado: é que a danada da moeda era tão forte que não deu pra quem queria, e embora ainda crendo na vantagem, cumpriu com sua parte.
Trato é trato. E depois, a ordem do homem estava na mão dele! Não via como ficar no prejuízo. Ademais, João, o cidadão, elegera-se, e qualquer horinha dessas toparia com ele e marcaria nova data para o recebimento da danada.
Mas seu descanso foi tanto que logo o homem e a moeda foram ficando cada vez mais distantes, e aos poucos foi se sentindo envergonhado por querer incomodar a João, o cidadão, sempre ocupado, envolvido em assunto de mais importância, que até perdeu o jeito de como tocar no assunto e resolveu deixar o homem em paz.
Parou de aperreio. Adotou o hábito de só sair de casa com a ordem no bolso, convicto de que deveria estar no ponto quando lhe fosse apresentado a cal.
Após várias tentativas, e após ouvir a mesma resposta:
“O calcário deu uma sumida na terra, ia ser preciso uma boa trabalhada para retirar mais pedras”, e tendo ficado sabendo que outros também não tocaram na moeda, Zé, o do povo, foi se convencendo que apenas tivera má-sorte.
Contentou-se em aguardar a nova remessa e tomou uma decisão, enquanto esperava as quarenta quartas de cal. Já que tinha a ordem em mão, compraria de seu bolso, rebocaria toda a casa, e quando botasse as mãos naquela que já era sua de direito, faria um bom negócio.
Livrava-se da chacota dos vizinhos, da perguntação da mulher e daria a volta por cima. Ora, se não!
Assim foi feito e logo toda a casa do Zé, o do povo, estava caiada. Pôde, enfim, dobrar a ordem e guardar em lugar seguro, onde só ele soubesse, e na hora certa fazer uso da palavra do João, o cidadão.
Aquilo ainda lhe renderia um desaperto! Era só esperar, que em menos de quatro anos sua sorte haveria de mudar.
A ingenuidade do Zé, o do povo, e a paciência com a sorte, foram aos poucos se esvaindo, e embora resistisse à idéia de haver sido engrupido, foi ouvindo uma estória aqui, outra ali, e a conclusão era que restaria no prejuízo.
E resistia mais ainda porque João, o cidadão, sempre cumprimentando a ele e aos seus com tanta amabilidade! Não estava certo!
E quando menos esperava, anunciou-se nova campanha eleitoral, e encheu-se de contentamento quando ficou sabendo, também, que a caieira do João, o cidadão, começaria a fumegar naqueles dias.
Foi então que o Zé, o do povo, finalmente pode contar o tempo da espera de suas quarenta quartas de cal, e sem nenhum rancor, encheu-se de alívio e planejou nova recepção a João, o cidadão.
Desengavetou a ordem amarelada, desdobrou-a e a manteve em lugar de fácil acesso, inteiramente confiante que seria ele um dos primeiros a serem agraciados com a nova cunhagem, naquela eleição do ano 2000.
E tão logo a política começou a fervilhar, todas as tardinhas, lá estava Zé, o do povo, pontualmente sentado na calçada, com o olho correndo para um lado e outro da rua.
E para que a conversa não se alongasse tanto, mantinha a ordem no bolso e a resposta na ponta da língua. Apesar de se resguardar, para não falar besteira, era melhor se prevenir em caso de esquecimento ou desfeita de João, o cidadão.
Afinal de contas, a um homem de tanta ocupação havia de ser dado um voto de confiança! No fundo, tivera má-sorte e talvez até se enganasse na hora do comparecimento para receber a cal, ou então Deus não quis que ele recebesse a moeda naquela eleição.
Era isso. Lamentar-se para que? Com certeza, em breve tudo estaria esclarecido e então toda a sua desolação teria um fim, e venceria a resistência daquela desconfiança, bastando a reposição do custo da cal, que já seria de bom aceite.
Foi ouvindo notícias de visitas do João, o cidadão, em ruas bem próximas. O homem se aproximava devagar e a vigília teria que ser mais aprimorada.
Ai dele se naquela altura da espera ainda somasse outra má-sorte com um desencontro!
E então foi antecipando para o meio da tarde os horários da recepção. Era tanta ansiedade que, sem se aperceber, já nem mais saía de casa e ao menor movimento na rua ou conversa que se aproximasse da calçada, corria porta afora cheio de expectativa, apalpando o bolso para se certificar que não esqueceria a ordem.
Por fim, já nem trabalhava mais, e a mulher, não suportando o nervosismo e a fixação em que se metera o Zé, o do povo, ameaçava sair de casa ou atiçava a sua consciência com alfinetadas de cinismo de realidade, tentando despertá-lo para o absurdo daquela pasmaceira de acerto de contas.
“Era coisa perdida”, dizia, “Onde já se viu, um homem ser tão besta daquele tamanho”. Mas nada o fizera arredar pé, e arranjava um jeito para desconversar, concluindo que aquilo era coisa dele.
E chegou o dia esperado. Era já noitinha quando um vulto apontou na porta. Antes mesmo de ser convidado para entrar, já foi logo informando que reservara aquele dia só para visitar o Zé, o do povo. Que o motivo da demora foi porque o Zé, o do povo, não merecia visita rápida.
Zé, o do povo, não era qualquer um apenas para aperto de mão. Já o considerava um dos seus, e os seus mereciam um dia especial.
Mas João, o cidadão, cometeu o deslize de ir logo entrando na conversa da cal, elogiando a beleza do reboco das paredes.
“Aquilo sim, era outra vida de casa”, e num seco de resposta, Zé, o do povo, emendou: “Mas não foi com seu cal”, e enfiando a mão no bolso, retirou o pedaço de papel amarelado da ordem, estendendo a João, o cidadão.
“Sua ordem ainda tá comigo, não vi a cor do seu cal”.
“Não me diga uma disgrama dessas?” João, o cidadão, com uma das mãos segurava a ordem e com a outra espalmava repetidamente a cabeça, manteve os olhos fitados entre o papel e o Zé, o do povo.
“Como é que isso pôde suceder?”, e Zé, o do povo: “O cal se acabou, não deu pra mim”, pacientemente.
João, o cidadão, prosseguiu queixando-se da desordem de seu pessoal.
“Sempre soube que estava rodeado de gente irresponsável, mas aquilo era inconcebível, era imperdoável, nunca deixara os seus no prejuízo”.
Era uma desonra, uma desfeita pela qual jamais pensaria agüentar. Uma desgraça, uma coisa sem cabimento. E em meio ao desagrado que fizera Zé, o do povo, recobrado de confiança, empunhou uma caneta, retirou uma caderneta do bolso e disse:
“Para lhe mostrar que sou homem que cumpro com minha palavra, vou dobrar essa ordem. Agora vou lhe dar oitenta quartas de cal”.
E refez a ordem no papel, entregando-a ao Zé, o do povo, com as mesmas recomendações de que estivesse tal dia, tal hora e em tal lugar, e que ele mesmo, em pessoa, estava encarregado da entrega. A moeda ainda continuava forte.
Amarrou o voto, mudou de assunto, até bebeu do café do Zé, o do povo, sempre elogiando o reboco da casa e caiu em mais desculpas, esforçando-se para mostrar que um homem com o encargo do seu quilate não estava livre do erro.
Mas para João, o cidadão, fazer valer a credibilidade da palavra era algo inquestionável, e mais do que uma ordem, o que se encontrava em jogo era o seu nome, e disso não abriria mão. Era questão de honra, e para ele, quando o assunto tocava na honra, o papel nem tinha serventia.
Porém, palavra por palavra, Zé, o do povo, achou melhor se garantir também com aquela nova ordem escrita, rasgando-se a mais velha, e fez questão de despedir-se do João, o cidadão, demoradamente no meio da calçada, para que todos pudessem ver e testemunhar que ninguém lhe fazia de besta.
Fora um desencontro, uma má-sorte, e houvera chegada a hora de acertar tudo, refazer-se da despesa e partir para o lucro, refeito de todos os abalos de desconfiança a que fora submetido durante os últimos quatro anos.
Tinha razão. A um homem da ocupação do João, o cidadão, merecia ser dado o crédito da confiança. E concluiu que presumira certo, como acertadamente fora o seu primeiro voto eletrônico. A cara do homem saiu direitinho na máquina, e no mesmo dia ficou sabendo que ele fora reeleito.
Dizem por aí que, ao se aproximarem as eleições do ano de 2004, o Zé, o do povo, andou rodeando a João, o cidadão, meio por acolá, acabrunhado, desiludido.
2007