AÇUDE FALCÃO - Bicudo
17/04/2008

Por: Antônio Gonçalves Pereira - Bicudo
 

Nos vagões de minha memória, digo vagões para representar os vazios e esquecimentos, recordo-me do ano de l971.

- Cocó, rebola o cueiro, o Neném está se afogando. O que esta peste desse menino quer se metendo dentro d’água? Não sabe nadar, quase morre!

-  Isso lá morre, mãe. Já viu piaba morrer em água?

Tive o meu fio de Ariadne! O Minotauro Falcão por pouco não me engoliu para sempre, sem me permitir deixar para a humanidade banco genético. Se de muita valia não sei, destarte, não há aquele que não deseje registrar sua passagem na terra e perpetuá-la. Há um forte sentimento de humanidade nesta contextualização. Dona Maria, mãe nossa de toda dia, carinhosamente chamada por todos nós de Véa Maria e minha irmã, Cosma, que Deus a tenha em confortável assento, a duras penas, prestaram-me, decisivamente, o socorro dos afogados! Com tantos filhos, àquela época 10(dez), minha mãe, particularmente, negou o lugar comum de que “um a mais, um a menos, não faz diferença”.

Em circunstâncias tais, tomei conhecimento, na pele, da existência do glorioso Açude do Falcão. Meu Deus, que oceano bravio!

Gozava aquele oceano de liberdade plena. Não havia cancelos barrando o seu uso e abuso como agora tantos há. Para as bandas da cidade, não havia esboço qualquer de propriedade privada. Suas margens eram livres para pleno gozo da comunidade. 

O quase sinistro se deu numa de suas repartições. Aquele era dividido em banheiro dos homens e banheiro das mulheres, fazendo-se menção ao da casa do motor e ao da parede, embora, tomasse banho, invariavelmente,  em toda sua extensão. Sem falar na ilha. Os dois primeiros, secundados pela nomenclatura, eram, rigorosamente, obedecidos. Os dois últimos,  parece-me, quando das muitas vezes que freqüentei, eram unissex!

Não canso de repetir: o Falcão foi meu celeiro; meu parque de diversões; minha vida infanto-juvenil! Quando da incidência de fome, traíra na pança! Só das  “pau de negra”. Era batata. Nunca negava fogo. Piaba? Vixe! Que delícia! Era só lavar um cueiro bem qualificado, ali estavam às centenas. Fisgá-las com tripa de pato, marreca viuvinha, outra arma química! Com estes artefatos, já podia configurar pesca predatória. E, não havia esta incomprovada contaminação dos peixes por esgoto ou pelo  lixo do Hospital. Pelo menos naqueles tempos. Se de sorte, até hoje vivo!

Todas as crianças da minha geração, salvo raras exceções, acorriam ao seu leito. Cheio ou seco, o espaço compunha palco para  extraordinárias brincadeiras. Para os tempos presentes, imagino tratar-se de um mar morto. Venceram o arco do seu destino: alegrar os dias dos menos favorecidos.  Entrançaram. Entiriçaram arames farpados em seu completo entorno. Se bem presto atenção, atualmente, a molecada passa ao seu largo.  Espero equívoco meu, para ressurreição de minha felicidade!

Não sei se com direito de domínio, o certo é que amarraram aquele espaço outrora público. Público por excelência!

Minha primeira atividade do dia: banho no Açude do Falcão. Um pedaço de sabão “potaça” tornava-se conveniente. Folha de juá não faltava para escovar os dentes.   E lá estavam as personalidades da cidade. O finado Mozart, juntamente com seu falecido irmão, Ademar, eram presenças cativas. Calção, toalha no ombro e sabonete. Também, os falecidos Chico Loureiro; Expedito Cardoso e outros tantos que o tempo consumiu, transitavam por aquela praia. Luiz Procópio, religiosamente, caía para aquelas bandas, muito cedo da manhã.  Lembro que havia, no lado do banheiro dos homens, uma pequena casa de taipa de um Sr. chamado Luizinho, acho que Loureiro,  em cuja frente construímos uma pequena barragem, de águas cristalinas. Estas águas faziam a serventia da casa. O Cesário do “biongo”(por onde andará?), com suas deliciosas avoantes, demarcava existência ali bem como o finado Inácio, da borracharia, além do Lica, irmão do Raimundin do “Seu” Manel Mariano. Seu Marçal e família construindo, juntos, oficina mecânica de renome! Tantos foram e são os seres que margeavam aquela ambiência que fazer uma lista seria infindável.

Favela, velame. Nossa! O “azedin”, o canapum, o melão “caitano”, a “bagem” da algaroba, habitualmente, em crises de inverno,  comiam-se. Com variadas iguarias, tendo-se disposição para consumi-las, não se passava fome. Tudo existia em abundância por trás do Clube. Acresça-se que, para péssimo caçador, havia, aos montões, andorinhas e pardais. Nunca consegui tirar a vida de uma rolinha. O máximo, o máximo mesmo, era, covardemente, abater andorinha. Lamento, vez que não se vê estas aves mais pela Independência! Entretanto, na lei daquela triste cadeia alimentar, não havia opção melhor. O binômio matar-morrer freqüentava, com assiduidade, o nosso dia-a-dia.  

Menino não tem juízo mesmo não! Uma das mais recorrentes lembranças se relaciona com  uma brincadeira que, rotineiramente, fazíamos. Tomávamos de empréstimo compulsório pneus usados do Posto de gasolina de “Seu” Luiz Claudino(Que saudade da envergadura empreendedora do  “Seu” Luís, aparentemente calmo, mas de robusta valentia!), de preferência de carro grande. Então, colocava-se um dos nossos dentro e, da cabeça do alto, onde fica a plataforma de lavar os carros, rolava-o, com o sujeito em seu interior, indo o mesmo parar somente na água. Incansavelmente, repetia-se a aventura. 

Falcão, luxuosamente, em Minha Terra, é nome de Açude. Nos Estados Unidos, espécie semelhante, de igual família(Águia Branca) simboliza a força do Império. A soberba. A asfixiante soberania planetária. A hegemonia do capital imperialista. No meu lugar, aquele é que é asfixiado; premido pela mais horrenda das criações e deturpações: a apropriação, creio, do, faticamente público, pelo privado.

O Falcão, por todo o tempo foi e é estigmatizado. De suas cacimbas, poucos bebiam água. Bebi. Se a fúria das históricas secas retornar, não há por que não bebê-la!

E sobre questões de políticas públicas, torna-se inadiável a criação de um balneário para o povo de nossa terra. Tipo uma “praia” de água doce. Nos dois açudes que, privilegiadamente,  situam-se dentro da cidade, o contingenciamento é agressivo. O só fato do Bar Paredão localizar-se à beira da Barragem, o faz preferencial. As tardes, por aquelas pragas, são maravilhosas! Quiçá existindo algo de público com irrestrito uso das águas, respeitando-se, logicamente, o meio ambiente. Água retida tem por demais! Graças a Deus! Não é engodo. E agora com este dilúvio, até mesmo o Falcão sangra torrencialmente.

Estribado no que se escreveu, o Falcão foi todo o meu sentido de infância. São lembranças que sempre me trazem de volta à terrinha. Sem vivência rica como esta, possivelmente, aquela teria sido menor e, ao adulto que sou, faltaria este caráter de completude.

Circunstancio, por outro lado, que só o Falcão não seria capaz de produzir este sentimento. Evidencio outros elementos que compõem o enredo. Assinalo que não é possível viver na situação versada em “As Aventuras de Robson Crusoé”: ilhado. Os amigos são peças fundamentais. São componentes que, ausentes, não produziríamos história. Não realizaríamos “as artes” que são próprias à formação de um indivíduo. No bojo das relações da infância, percebemos o mundo humano como ele é. Distinguimos, muito cedo, a decantada situação filosófica do “certo e errado; do homem bom e mal”; os paradoxos “do pobre e do rico”; a construção dos tabus, fonte incessante de frustrações, até mesmo impossibilitantes  do sufocante “vencer na vida”; a destruição daqueles, todavia,  há de ser forjada no momento do seu nascedouro: na infância!    

Posso dizer, sem óbice de dúvida, que o espaço do Açude do Falcão foi algo institucional para mim. Algo muito superior à própria escola. Lá, rendo este comentário sem pretensão de desestimular a necessidade daquele aparelho estatal, formei a convicção de que para galgar espaços sociais, haveria de, insubstituivelmente, ingressar em escolas. Lá, houve brecha para produzir o que até mesmo a escola não conseguiu: a consciência da necessidade de estudar e lutar para obter os meus meios materiais de subsistência. Quando me refiro “lá”, pretendo dizer a teia de relações humanas  que o cenário Açude do Falcão me proporcionou. Relações de superação dos diversos complexos que podem afetar o ser pelo resta da vida. O mais presente complexo, extirpado desde aquela época, não de todo, foi o de inferioridade. Igualo o peso deste complexo à força de Sanção. Absolutista solitário. Quem não domá-lo, sucumbe para  o todo e sempre.

Reporto-me, então,  ao gênio de  Jean Piaget. Seu campo de pesquisa poderia, invariavelmente, fazer-se representar por este espaço a que tanto me referi. A minha interação com este meio foi determinante, como bem frisei.

Toda criança deveria ter um Açude do Falcão em sua vida! Ao meu derredor, três filhos e uma jaula. É o quotidiano da cidade verticalizada. Por mais que se busquem alternativas na grande selva de pedra em que se transformaram as grandes cidades, jamais nossos filhos terão o apontamento cultural que um “parque” universal pode gerar. E o Açude do Falcão foi este parque em minha e na vida de muitos conterrâneos.

De tanto ver as coisas não acontecerem, em Minha Terra que, como um Judeu, a denomino santa, obrigo-me a ser chato. Urge o resgate desta porta larga de diversão. Os gestores públicos não podem ilhar a criançada. Uma espiada neste tema se impõe de ordem pública e de inafastável interesse da coletividade. Quem sabe, tantos que já tombaram à sarjeta, às drogas, às facadas, ao suicídio, não teriam tomado rumo tão certo à morte?      

O Falcão, a comunidade,  precisam deste socorro! Para ontem!

- Antônio Gonçalves Pereira (Bicudo)

 
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