SETE TRAJES IMPECÁVEIS - Vera Pedrosa
22/05/2008

Por: Vera Lúcia Gomes Pedrosa
 

Depois que migrei do sertão, passaram-se anos antes de retornar ao torrão natal. Morava em cidade satélite de Brasília, com características de subúrbio e desprovida  de qualquer atividade cultural. Retornar ao interior era sonho antigo, alimentado pelos conterrâneos que chegavam com as novidades: alguém que casou, morreu ou mudou-se. Julho de 1980... Aprovada no vestibular, dinheiro economizado, mala arrumada com poucos itens, voltei a São José. Revi paisagens de infância, diminuídas proporcionalmente ao tamanho que alcancei. Os móveis já não eram tão grandes, o curral, chiqueiro, riachos, tudo meio minúsculo. Amigas já com filhos a lhes puxar as saias. Fui às  festas das redondezas, iluminadas a lampião. Acertar passos em piso batido, complicação. Rapazes encabulados ao convidar-me a dançar. Logo,  tomei conhecimento das “Festas de Santana”. Programa obrigatório para todos que moravam nas redondezas. Dificuldade.... Ficar onde? Não tinha parentes próximos, melhor dizendo, conhecidos para me receber. Ir direto para festas? Impossibilidade, já que não dispúnhamos de transporte próprio. Surgiu o nome de uma prima que já tinha morado em Brasília, naquela época residente em Independência. Lá fui eu procurar Iracilda, que, em Independência, era conhecida por “Tia Manca”, figura simpática e receptiva. Lá me instalei e me preparei para  ficar nos últimos dias das festas. Primeira festa- dia 24 de julho- Clube Rutilo, creio que existiam outros, todavia este era o freqüentado pela sociedade independenciana. Que susto! Eu parcamente vestida, deparei-me com figuras bem trajadas, na última moda, cabelos escovados. Situação que para mim era completamente surreal. Como não tinha conhecimento da cidade- a única vez que tinha ido era quando tinha seis anos, aquilo me pareceu deslumbrante, embora estivesse meio constrangida. Constatado que não tinha roupas à altura daquele acontecimento, no outro dia fui-me embora para São José, ainda meio aturdida com a elegância das mulheres. Chegando a São José, comentando com uma irmã que ali residia,  soube  que para as festas de Julho  todas as mulheres faziam sete trajes, que era proibida a repetição. Economizavam meses para que naquele evento tudo saísse de acordo com o planejado. Como tudo aquilo havia me marcado muito, resolvi que na próxima vez seria diferente. Retornei quatro anos depois, desta feita preparada para tão importante acontecimento. Vestido balonê rosa, costurado em casa por uma prima, fui para o baile do dia 26. Festa estilosa, onde é exigido traje social para ambos os sexos. Entrei em traje de gala, me sentindo linda, a própria “tassi”. Outra decepção!As mulheres me pareciam muito mais chiques do que na primeira vez. Existia no clube uma disposição das mesas e cadeiras de forma que as pessoas mais importantes na cidade eram as primeiras que apareciam, mesas com uísque depositado no centro, orquestra tocando, pessoas circulando.  Os homens, ao contrário, na maioria das vezes, era puro desapontamento, neles se viam as mais esdrúxulas combinações: ternos compridos, camisas saindo pela mangas dos paletós, xadrezes. Não desisti, no entanto, de me vestir conforme o figurino. Fui a outras festas, mas sempre achei que minhas roupas nem se aproximavam das roupas daquelas mulheres, independente da classe a que pertenciam, eram sempre lindas. Faz tempo que não vou às Festas de Julho. Hoje, pergunto-me se ainda me deslumbrarei com suas roupas, se me sentirei inadequada, se conseguirei dançar forró em traje social. Será que aquela impressão ainda permanece? Torço que em julho eu possa conferir outra vez os meus sentimentos.

verapedrosa1@hotmail.com

 
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