Segunda-feira, 19 de Maio de 2008
"Quem não reconhece grandezas nos outros demonstra não ter grandeza."
Rogerlando
Quem aglutinava a família Coutinho- e se mostrava o único capaz de apaziguá-la - era mesmo o Sr. Alceu Coutinho. Na sua falta, previsível e naturalmente, haverá um esfacelamento dos diferentes grupos, que, só por capacidade de liderança dele, se não se harmonizavam, mantinham unidade política e eleitoral. Foi assim que, nos últimos tempos e sob a liderança do Sr.Alceu Coutinho, por ex., se elegeu, se derrotou e, novamente, se elegeu Valdi Coutinho prefeito e, tantos da família, vereadores. (Aliás, a ausência de Alceu se fará sentir, imediatamente, na investida eleitoral do prefeito Valdi...)
Ainda que resistam em admitir, a figura que, efetivamente, liderou a família foi o Sr. Alceu Coutinho: a alçou, depois de tantos anos ( os anos dominados pelo Sr.Adonias Carneiro ), ao topo, novamente, da vida política ( eleitoral e administrativa) de Independência. E se com sua presença pacificadora havia atritos e rompimentos, sem ele, tudo - e todos os grupos da família - tendem a, cada um, buscar rumos próprios.
Alceu sabia indicar e manter o foco - era um farol, guiava os incautos nas águas turvas que, vez ou outra, se torna a política municipal. Para aclarar que Alceu antevia os lances da política municipal vou me valer de uma metáfora que sempre usei para definir sua astúcia política: que é a de que, enquanto os outros - adversários e mesmo aliados - jogavam damas, Alceu, sobre o mesmo tabuleiro do jogo de damas, jogava xadrez. Além disso sempre manteve o que falta aos políticos locais: transisto na Assembléia e junto ao Governo do Estado. Capacidade (comprovada) de influência, eis o segredo que fazia de Alceu Coutinho a liderança com comando - e mando - dentro e fora da família Coutinho, no munícipo de Independência. Mas poder de influência e prestígio político não se transfere, tampouco se herda. De modo que, Alceu, não conhecerá suscessor. Seja nos filhos, seja nos netos, seja entre outros parentes e consaguíneos não se verá surgir "o substítuto"... O, digamos, espólio - político leitoral - de Alceu se dividirá entre muitos, de tal sorte que, demasiado estendido, perderá força. Se dispersará.
Mas esta história, como toda história, comporta, entre tantas, outra leitura: a ausência de um líder tão plenipotente significará o inicio de novos tempos. De pronto, abre a possibilidade do surgimento de novos líderes... Líderes que, necessariamente, mesmo se surgidos de dentro da família Coutinho, não serão herdeiros do prestígio e do poder de influência daquele que, involuntariamente, permitirá a ascenção de outras fíguras públicas. Abre-se, na verdade, um novo contexto político-eleitoral. Contexto no qual as novidades - surgimento de novas lideranças, comportamento do eleitorado órfão, ou sem guia - serão determinantes dos rumos políticos, eleitorais e administrativos de Independência.
E ainda é preciso reconhecer que Alceu Coutinho deixa lições. Lições que transparecem de seus movimentos de enxadrista político e que servem a todo aquele que demonstre sensibilidade para percebê-las, pois ele não as deixou literalmente, mas entrisecamente, na sua história e trajetória, escritas. Listo aqui o decálogo das que suponho as mais sagazes:
1 - A precipitação política pode suscitar arrependimentos eleitorais;
2 - Deve-se marcar posição, mas sem fechar-se às alianças. E deve-se fazer alianças mas sem abrir mão do território demarcado;
3 - Nunca degradar o adversário ao ponto de instar nele um inimigo, pois o adversário de hoje pode ser o aliado de amanhã;
4 - Ao invés de abater-se ante a uma derrota, prepare-se para o pleito seguinte;
5 - Tão importante quando vencer é saber que a política não cessa nem antes, nem durante, nem após o pleito - segue como segue a vida;
6 - O bate-boca degrada e exaure, por isso deve ser deixado aos piões; a provocação, desequilibra, mas nada desgasta mais o adversário do que a constância com que se o fustiquem e o pressionem - quem vence pelo cansaço também é vitorioso;
7 - O cabo eleitoral auxilia, mas o povo é mesmo quem decide;
8 - Os meios de comunicação devem ser explorados em todo o alcance que possibilitem, mas sem excessos;
9 - Manter uma base fiel só é possível tendo-a condicionada... até o ego - As pessoas devem sentir orgulho de ser parte de um grupo e, mais ainda, de seu líder;
10 - Não é ideologia que forja um líder, é pragmatismo, afinal o ideológico tem apenas uma maneira de velar interesses comezinhos.
Dito isso, acrescento: Alceu Vieira Coutinho foi prefeito de Independência aos 19 anos e ao longo de mais de 60 anos militou na política: na local, na estadual e na federal - seus pedidos de votos iam do vereador municipal de Independência ao Presidente da República Federativa do Brasil. Atravessou os diferentes momentos da política nacional, demonstrando constante capacidade de adaptação. Tudo sem abrir mão de sua condição de líder.
E, ao fim, legou ainda uma lição: manter-se ativo até o último instante.