O CEMITÉRIO DOS ANJOS - ANTONIO MENEZES
26/05/2008

Por: ANTONIO MENEZES
 

Cemitério dos Anjos

 

17 horas.

A noite sempre se anuncia mais cedo do outro lado da ponte. Talvez se possa até dizer que as nuvens são mais densas ou escuras lá do outro lado da ponte, onde mora Laura, que caminha apressada, porque deve transpor a ponte antes que anoiteça, e que só agora se deu conta de que não é só a dia que anoitece.

A cada um, a vida traz uma noite. E também só agora percebe que sua vida anoitece mais tenuemente que a própria noite que se anuncia do outro lado da ponte. Traz um embrulho pendurado em uma das mãos e com a outra vem amparando o que restou de Casimiro, e de três meses de sofreguidão e desatino em total desobediência amorosa.

Laura precisa alcançar a ponte, para alcançar a noite, do outro lado da ponte. Está ciente de que não é à noite e não é a ponte, o motivo da ansiedade. Porém, caminha apressada. Tudo já está encomendado.

Laura tem vinte anos e não teme tanto a noite para não esconjurar a juventude. O que tem de juventude e o que terá de noite, do outro lado da ponte, mais tarde.

Não espera alívio, mas haverá perdão pela responsabilidade solitária que a noite lhe ofertará naquela noite, do outro lado da ponte.

Ela agora já não caminha tão apressada. Retém o passo para tentar reter a noite, a ponte. O tempo da ponte. Se não atravessar a ponte, naquela noite, outras pontes sucederão àquela, e outras noites virão, e Casimiro nunca estará do outro lado de nenhuma delas. Casimiro se foi, só lhe resta o embrulho amparado em uma das mãos. Mas tudo já está encomendado.

Dona Josefa saberá o que fazer. Só terá que ultrapassar a ponte e esperar a noite. A ponte que parece vir ao encontro dela agora, por mais que reduza os passos, anunciando a noite de sua vida.

Mas a ponte é a porta de sua noite. Primeiro a ponte, só depois é que terá a sua noite. Que o infortúnio da existência delas lhe seja breve.

21 horas.

- Tu és doida, mulher! Onde já se viu uma proposta dessas. Eu tenho é trinta anos de parteira. Mais de duzentos meninos já nasceram por conta dessas mãos, e agora tu vens com essa conversa de que não quer ver esse menino!

- Pois é assim que tem que ser, Dona Josefa. E não vai ser o primeiro no cemitério dos anjos.

- Que estória é essa? Para lá só foi quem Deus quis. E tem mais: se tu continuar com essa conversa, vá ter esse menino longe de mim. Onde já se viu! O cemitério dos anjos não é esconderijo de aborto!

- Sei não. Semana passada eu estive por lá e vi mais de duas covas bem fresquinhas, e não ouvi nenhum sino tocar pra anjo por estes dias. E é o que todo mundo sabe, mas ninguém quer admitir: o cemitério dos anjos é para onde vai menino que não devia ter sido feito. É assim mesmo, Dona Josefa. Dói, mas é com o que a gente pode se apegar. Um menino nas minhas costas vai ser o meu fim, a minha desgraça. Eu não vou ser mais ninguém. Quem é que vai querer dar trabalho a mulher com menino pendurado nos peitos. Vai ser pedir esmola pra dois. Se não for com a senhora, eu faço o serviço sozinha, mesmo que seja embaixo de uma moita. Mas faço. A senhora se decida, porque eu não mudo de idéia. Esse vai pro cemitério dos anjos, sem cruz e sem nome, e que depois Deus me castigue como quiser.

- Cruz credo! Não foi este o destino que Deus me deu, cristã. Meu ofício é trazer pro mundo. Quem tira é só Ele.

- Pois eu acho que a senhora tá me embromando, porque não tenho como lhe agradar. Eu sei muito bem que a senhora já mandou muitos para o cemitério dos anjos. Me acuda, mulher de Deus! Esse menino foi um erro que eu não tenho como carregar sozinha. A senhora sabe da miséria que todo mundo passa lá em casa. E a minha mãe não vai perdoar mais uma boca.

- Esse menino não tá mais no teu poder, criatura de Deus! E bata a mão na boca por essas sandices que tu tens ouvido. Tem gente ruim neste mundo que só consegue ver o mal em tudo. Deus é testemunha de que só morreu por estas mãos quem Ele quis, ou porque estava acima de minha posse. E digo mais: eu sei que quem te falou isso de mim foi a Biluca, do Zé Ernesto. Ela quis que eu desse um fim na barriga da filha, mas eu botei o menino nas mãos dela, e a danada nunca mais nessa vida me perdoou depois que a filha ganhou o mundo e deixou o menino pra ela criar. Mas tá lá, pra quem quiser ver. E só pela obra de Deus, ele tem seis anos e já sabe ler. Há de ser gente, e eu ainda quero estar aqui pra ver.

23 horas.

Laura acorda por um soco na barriga. Está só. Sente uma enorme vontade de gritar por Casimiro, mesmo que seja para amaldiçoá-lo. Chegou a hora e os planos não saíram como houvera previsto. Dona Josefa a abandonara.

4 horas.

Um vulto solitário caminha pela rua escura, do outro lado da ponte, segurando um embrulho pendurado em uma das mãos.

7 horas.

No cemitério dos anjos, uma nova cova foi aberta. Sem cruz e sem nome.

2007

 
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