A SEMELHANÇA DAS GENTES - ANTONIO MENEZES
26/05/2008

Por: ANTONIO MENEZES
 

                                                   Ao Dr. Chico Marques e ao Centro Cultural Abigail Marques

Vejo sob a parede, na casa de minha mãe, um crucifixo calcificado.

O terço e a cruz parecendo agora a extensão de uma artéria que pulsa.

Às vezes, temos a impressão de que uma casa antiga, que abrigou

muitas gentes, muitas vidas, tem também a sua – própria vida.

E o que diria uma dessas casas se lhe perguntássemos

qual o melhor estágio de seu viver ?

Certamente que o tempo das infâncias.

Das ninhadas de meninos esparsos sob seu teto,

a lhe tatuarem as paredes, a lhe escalarem os telhados.

O tempo dos alvoroços de ingenuidade em seus corredores,

e da cumplicidade na arquitetura dos sonhos engendrados na adolescência.

Também à semelhança das gentes,

as mudanças que lhe forem impostas vão assumindo

as feições de mudar de roupa,

obedecendo sempre a uma tendência mais atual,

ou somente para retardar, à semelhança das gentes,

os efeitos ineludáveis da envergadura do tempo.

É verdade que uma casa sem gentes é uma casa sem vida,

e este fato se agrava quando em outros tempos houve

compartilhar vidas, e o silêncio que exalam as casas sós

tem o mesmo sentimento do abandono humano.

Quando se quis dizer que uma casa adquiriu as feições de uma pessoa,

apenas se omitiu sua intencional vocação para também ser gente,

à semelhança das gentes.

E muitas dessas casas não acompanham as gentes

porque lha deram raízes, ao invés de pés humanizados,

ou porque assumiram por muito tempo uma segunda

função de pais, de confessor e de um amigo silencioso.

Nada é mais disputado nesta vida que um amigo silencioso.

À semelhança das gentes, tanto há que se dizer

sobre essas casas com vida que a mais astuta

das gentes optará – sempre - por escrever e falar pouco,

e aquietar-se para ouvir a pulsação das paredes.

Antonio Menezes

2008

 

 

 

 
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