Ao Dr. Chico Marques e ao Centro Cultural Abigail Marques
Vejo sob a parede, na casa de minha mãe, um crucifixo calcificado.
O terço e a cruz parecendo agora a extensão de uma artéria que pulsa.
Às vezes, temos a impressão de que uma casa antiga, que abrigou
muitas gentes, muitas vidas, tem também a sua – própria vida.
E o que diria uma dessas casas se lhe perguntássemos
qual o melhor estágio de seu viver ?
Certamente que o tempo das infâncias.
Das ninhadas de meninos esparsos sob seu teto,
a lhe tatuarem as paredes, a lhe escalarem os telhados.
O tempo dos alvoroços de ingenuidade em seus corredores,
e da cumplicidade na arquitetura dos sonhos engendrados na adolescência.
Também à semelhança das gentes,
as mudanças que lhe forem impostas vão assumindo
as feições de mudar de roupa,
obedecendo sempre a uma tendência mais atual,
ou somente para retardar, à semelhança das gentes,
os efeitos ineludáveis da envergadura do tempo.
É verdade que uma casa sem gentes é uma casa sem vida,
e este fato se agrava quando em outros tempos houve
compartilhar vidas, e o silêncio que exalam as casas sós
tem o mesmo sentimento do abandono humano.
Quando se quis dizer que uma casa adquiriu as feições de uma pessoa,
apenas se omitiu sua intencional vocação para também ser gente,
à semelhança das gentes.
E muitas dessas casas não acompanham as gentes
porque lha deram raízes, ao invés de pés humanizados,
ou porque assumiram por muito tempo uma segunda
função de pais, de confessor e de um amigo silencioso.
Nada é mais disputado nesta vida que um amigo silencioso.
À semelhança das gentes, tanto há que se dizer
sobre essas casas com vida que a mais astuta
das gentes optará – sempre - por escrever e falar pouco,
e aquietar-se para ouvir a pulsação das paredes.
Antonio Menezes
2008