A TIJELA DE MADEIRA - ANTONIO MENEZES
06/10/2008

Por: ANTONIO MENEZES
 

A TIJELA DE MADEIRA

Neste dias, de entusiasmo exarcebado em decorrência dos embates travados no front do pleito eleitoral, temos a sensação de que se perde muito em termos de vivência humana. De que os assuntos cotidianos são relegados ao esquecimento, e de que toda controvérsia deve se pautar em de que lado este ou aquele indivíduo irá se postar, sobretudo em comunidades reduzidas como é o caso da Independência.

Mas sempre deve haver um momento em que, lendo ou conversando com alguém, desperta-se em cada um de nós as substâncias mais elementares da vida, que continua e deverá continuar, independentemente do que vier a ocorrer no plano político eleitoral, daqui ou de qualquer lugar, justamente porque quem tem noção dos melindres da História, sabe que outros fatos sucederão estes, e daqui a dez anos ninguém mais se lembrará ou respeitará a posição hoje fervorosamente defendida.

É o humano que prevalece. Quem foi honesto consigo mesmo e quem soube se desvencilhar das armadilhas, ou quem não articulou armadilhas.

Digo isto para, adiante, transcrever um breve texto trazido colado na agenda escolar de minha filha menor, Penélope, que feito uma descarga elétrica despertou-me para o que relatei acima.

 

Intitula-se “A TIJELA DE MADEIRA”

 

“Um senhor de idade foi morar com seu filho, nora e o netinho de quatro anos de idade. As mãos do velho eram trêmulas, sua visão embaçada e seus passos vacilantes.

A família comia reunida à mesa. Mas as mãos trêmulas e a visão falha do avô o atrapalhavam na hora de comer. Ervilhas rolavam de sua colher e caíam no chão. Quando pegava o copo, leite era derramado na toalha da mesa. O filho e a nora irritavam-se com a bagunça.

- Precisamos toma ruma providência com respeito ao papai, disse o filho.

- Já tivemos suficiente leite derramado, barulho de gente comendo com a boca aberta e comida pelo chão, disse a nora.

Então, eles decidiram colocar uma pequena mesa num cantinho da cozinha. Ali, comia sozinho enquanto o restante da família fazia as refeições à mesa, com satisfação.

Desde que o velho quebrara um ou dois pratos, sua comida agora era servida numa tijela de madeira.

Quando a família olhava para o avô sentado ali sozinho, às vezes se percebia lágrimas nos olhos do velho, sempre calado. E mesmo assim, as únicas palavras que lhe diziam eram admoestações ásperas quando ele deixava um talher ou comida cair no chão.

O menino de quatro anos de idade assistia a tudo em silêncio. Uma noite, antes do jantar, o pai percebeu que o filho estava no chão, manuseando pedaços de madeira.

Então aproximou-se e perguntou delicadamente à criança:

- O que você está fazendo?

O menino respondeu docemente:

- Ah, estou fazendo uma tijela para você e mamãe comerem, quando eu crescer e vierem morar comigo.

O garoto de quatro anos de idade sorriu e voltou ao trabalho. Aquelas palavras tiveram um impacto tão grande nos pais que eles ficaram mudos. Então lágrimas começaram a correr de seus olhos.

Embora ninguém tivesse falado nada, ambos sabiam o que precisava ser feito. E naquela noite, o pai tomou o avô pelas mãos e gentilmente conduziu-o à mesa com a família.

Dali para frente e até o final de seus dias, ele comeu todas as refeições com a família. E por alguma razão, o marido e a esposa não se importavam mais quando um garfo caía, leite era derramado ou a toalha da mesa sujava.

 

Antonio Menezes 2008

 
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