AH, INDOMÁVEL PORTUGUÊS! - DR. BICUDO
31/10/2008
Por:
ANTONIO GONÇALVES PEREIRA |
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Falada ou escrita, a língua portuguesa nos desafia. Há uma infinidade de regras que nos embaralham. Muito dificilmente, não se erra. A profusão de exigências nos impinge a inflexões: o exercício, a vivência da língua se impõe sob pena de eternos atropelos. Eu, de há muito, deixei de usar o pronome pessoal do caso reto tu. Nem se fale de vós. Tu foste à festa? O interlocutor, dificilmente, entende. É sintomática a redargüição: o quê? Como? Você haverá de repetir. De repente, desconfia-se até mesmo de que você nada sabe. Ou então quer falar bonito. Notório desuso. Passei a perceber que nossa língua está perdendo, pela falta de uso, por sua dificuldade de flexão, diversos pronomes. Quando muito falamos tu. Entretanto, o verbo é errado. Tu foi? Decididamente, fôssemos nós bons leitores bíblicos, possivelmente, ótimas aulas teríamos quanto aos amontoados grupos de arranjos da construção do nosso discurso. A bíblia é impecável quanto ao uso correto dos pronomes, mormente, tu e vós. Nestes dias, com saudade dos velhos tempos de rigor quanto à utilização da gramática, indaguei a um próximo: tu foste à aula de violão? Respondeu: eu foste...o jeito foi cair na gargalhada! Insustentável o meu sorriso. Desabrochou de minha face como a impulsividade de um espirro!(Nesta situação não há muito querer. Veio pela sua essência de nascer. Não houve contenção, muito menos qualquer pretensão superior. Apenas a vocação do riso.) A seriedade da pessoa me fez convicto de que ela própria estava convicta de que nada havia de errado. É... Pensei. São coisas escabrosas de nossa língua. Dominamos os nossos jeitos e trejeitos de falar e estabelecemos firmezas equívocas de que estamos corretos. São vícios ideológicos que nos sustentam a valores que nos afirmam como determinado ser. A nossa magnitude é que somos feitos de acertos e erros. Há uma complementariedade. Há um embate de tese e antítese que nos faz gente. Gente capaz de esganar o próximo por imposição de nossos próprios valores. A santa inquisição professou esta fé! Fé na postura de que para chegar à salvação só há um caminho possível. Por estas e tantas outras, fui resoluto: há algum tempo abandonei, para sempre, o tu e o vós. Simplesmente acompanhei o trágico percurso da desconstrução da linguagem para bem viver. Utilizo, presentemente, os substitutivos você ou vocês. Jamais tu e vós. O perigo de eu errar é restrito! Tudo agora para mim é: você fez? Você comprou? Você não quer? Vocês fizeram? Fácil, né? Fosse só isto, dar-me-ia por resolvido. Ocorre que os gargalos são infindáveis. As dificuldades, nunca superáveis, são rotineiras e com variáveis frentes. O que dizer da conjugação de verbos em seus insondáveis modo, tempo, concordância verbal? Dos incontáveis tipos de sujeito... até de sujeito oculto ou mesmo inexistente. Sujeito abstrato. Haja paciência! Deparar-se com um sujeito inexistente ou mesmo oculto é de uma perplexidade vernacular! Como? Onde? Por quê? Precisamos de toda esta parafernália? Indispensável até. Se por ventura não se exigissem estas regras, embora infindáveis, não teríamos alcançado o mínimo que fomos capazes de aprender. O andor é sofrível. E volta e meia somos surpreendidos. Ah, meu Deus, está faltando uma vírgula; um ponto; a concordância nominal não encaixou; a verbal desandou. Percebendo a tempo de conserto, muito bem. Quando não, Inês é morta! Faço estas reflexões porque vivo do português. Ou vivemos da linguagem! Ai de mim se não fosse ele! Olha, mas este sujeito me maltrata! Os erros praticados são seqüenciais. O pior. A notícia só chega meses, anos depois, quando aparece a chance de uma releitura do que se escreve. Metade do meu tempo de vida é escrevendo. O discurso da minha profissão é amarrado. Há uma métrica a obedecer. Tenho que convencer a tantos que estou correto, embora por mil e uma razões nem esteja, entre outros tantos, de alma e peito lavados, de que estão com a razão. O português é a arma do convencimento, quando muito. Às vezes nem de consolo serve! Todavia, faz-se instrumental. Viver sob o dilema de que sempre há de acertar é fronteiriço. Não bastasse o vínculo de ter que manter reto o padrão do português, o do direito é de exigência imperial! A prática da injustiça não tem perdão! Do erro do português, há grandes portas de absolvição. Sob a perspectiva do outro, é cremação na certa! E no fogo dos infernos! Ora, minha proposição é de falar do português. A queda para outras bandas, talvez impertinente. Certo é que todos vivem sob a batuta da linguagem. Toda profissão requer um estilo próprio. A vida é a sua linguagem! É uma tremenda guerra para encontrar palavras de condenação e absolvição, tudo dependendo do caso. Quase sempre somos pegos de surpresa pelas convicções que formamos sobre o sentido das palavras. Em muitas situações, usamos palavras pensando que elas têm o significado que, robustamente, construimos. Estou convencido de que a linguagem é poder. Toda Nação tem seu padrão lingüístico, por onde estabelece seu domínio. Pela língua, o comércio se expande; o poder se expande; o autoritarismo se estabelece. A ordem mundial se entroniza! Falar certo, cem por cento certo; escrever certo, cem por cento certo, não é tarefa para humanos. E penso que humano não pode desejar tal amplitude, embora possa procurar. A meta é inalcansável! Que coisa mais chata um humano totalmente reto! Seria retirar sua natureza de humano e colocá-lo num pedestal superior à máquina. Ou propriamente a Deus... A pretensão de ser humano totalmente reto já gozou de experiência histórica. E que trágica experiência! Sucumbiram, segundo se lê de estatísticas, mais de seis milhões de judeus! O humano, por excelência, é ser em eterna evolução. A própria linguagem falada foi um aprendizado. A escrita, idem. Então, para nossos padrões, estamos em nosso nível de evolução. Lógico que os fatos históricos não se dão em uma cadeia de homogeneidade e simultaneidade. A língua falada ou escrita no nordeste brasileiro; no norte ou em todas as regiões, pelas próprias condições materiais de seu povo, não se aproxima do que legalmente exigível. Quando criança, assistia, com assiduidade e pontualidade, ao Programa “OS TRAPALHÕES”. Despeitei para a língua portuguesa pelas mãos do mestre “Didi Mocó”, sem desprezar “Mussum”. Dava gargalhadas infindáveis quando, de repente, um sujeito apontava um revólver na testa do “Didi” e ele perguntava: cuma? O “Mussum” dizia: me trazes uma “Sapuparis” ai. Seu Creisson e quantos outros se propuseram a falar errado, justamente para produzir uma discussão, a fim de que cuidássemos do nosso quotidiano, na perspectiva de forjarmos uma uniformidade de linguagem, foram e são de importância decisiva. A dinâmica da internet é especial. De repente, quando a pessoa está num bate-papo, códigos são introduzidos para dar velocidade ao diálogo. Não creio que seja erro sem percepção. Ou se produz um discurso curto, pela demora em escrever o correto português; a comunicação é feita com cortes na língua, ou o fato comunicativo não ocorre, satisfatoriamente. Preferível que nos acomodássemos escrevendo certo e veloz, mas nem todos têm o mesmo desprendimento, então, é de se eleger a comunicação! Para se ter um domínio até mesmo razoável da língua portuguesa, ou de qualquer outra área de estudo, faz-se mister orientar determinadas indagações. A pessoa teve o confortável acesso ao meio institucional escola? Só o convívio com a língua basta? Em que universo familiar a pessoa se encontra? Que base econômica tem esta pessoa? A genética é predisponente da aprendizagem? Creio que não é qualquer circunstância que origina um Machado de Assis! Erros sempre existiram e existirão. Esta é a nota que nos caracteriza e para sempre vai nos definir como seres normais, não programados feito máquinas! Neste momento, lembro de Charles Chapplin, em o Último Discurso: “Não sois máquinas, homens é que sois”. Deveras! Você leitor, na condição de humano que sou, encontrará, intangivelmente, erros no texto que acabo de escrever. Não esquente, não! Eu sou declarado um pobre humano, de inconciliáveis deficiências!
Fortaleza, 31 de outubro de 2008
ANTONIO GONÇALVES PEREIRA
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