NA TERRA DE GIGANTES - ANTONIO MENEZES
24/11/2008

Por: ANTONIO MENEZES
 

  

Há muitos anos havia um seriado de televisão, exibido às tardes, e como poucas casas possuíam televisores naquela época, em Independência, uma turma de meninos se concentrava, no meio da tarde, antes da sessão, embaixo da figueira da casa do Seu Chagas Ferreira à espera do início de “Terra de Gigantes”.

Quando aquele bom senhor abria as portas e janelas, íamos silenciosos, cada um, em busca do melhor lugar e lotávamos a sala da casa dele, enquanto alguns escalavam as janelas ou se espremiam, de pé, pelos cantos da sala. E daquele amontoado de meninos, abria-se um pequeno corredor humano para dar acesso ao interior da casa.

Ele também, o “seu” Chagas Ferreira , assistia conosco a todas as sessões, todas as tardes. Sempre muito sério, sereno e contemplativo, era o mediador de nossas emoções e o árbitro das tensões incontidas.

Aquele seriado, que encantou toda uma geração, relatava a história de pequenos seres humanos que viviam em uma terra de gigantes, também humanos, sempre escondidos, envolvidos em perseguições e estratégias de sobrevivência.

Os gigantes eram humanos e maus, mas não tinham aparências assustadoras e não perseguiam os pequeninos para devorar-lhes ou exterminá-los. E embebidos por uma síndrome de Davi, ficávamos tardes inteiras em frente à televisão a torcer pelo mais fraco, pelo menor, dispostos a interferir para antecipar os perigos, e aquela ficção foi fomentando em cada um de nós a idéia de que uma realidade semelhante nos rodeava.

Todo o seriado era mantido sob um clima de fugas e perseguições, e em nossas cabeças pululavam reformulações de finais de atos e de cenas. Da minha parte, avaliei que os pequeninos se mantinham perseguidos porque eram insignificantes. E então, tudo o que fosse pequeno era insignificante. Apesar de os pequeninos serem os heróis e constantemente se livrarem dos cercos e das prisões, eram insignificantes.

A trama se desenvolvia em pouco tempo, e ao final nos dividíamos em pequenos grupos e saíamos pelas ruas, como os pequeninos, em nosso mundo real, repletos de gigantes por todos os lados. Uns consternados, outros exultantes, e prosseguíamos com suposições individuais sobre qual teria sido a melhor saída, numa só tentativa de prolongar o final das aventuras, lá naquela Terra de Gigantes.

E cada um foi buscando um artifício qualquer para materializar o seriado o maior tempo possível. Todos os detalhes das cenas influíam em cada um a idéia de que aquele mundo era real, ou que pudesse vir a ser. E assim, encontrei na minha calçada da casa da Vila Militar os meus pequeninos em quem infligir uma experiência infantil, de que até hoje me recordo. As formigas.

Um dia, após mais um seriado, procedi à captura de várias formigas pelo quintal, e fui prendendo-as dentro de um vidro, até serem dezenas fervilhando em um amontoado de grãos avermelhados, e me dirigi com elas para uma calçada lateral, com um pequeno balde de água, e utilizando-me da irregularidade do cimento, fui despejando a água em forma de pequenos círculos, onde construí o cativeiro e as punha lá dentro, aos poucos. Às vezes eram improvisados até quatro cativeiros como esses e sentia materializada a minha própria terra de gigantes.

Eu me sentia o gigante e me postava vigilante ao lado dos meus pequeninos, perscrutando silenciosamente o atabalhoado de seus movimentos em busca de uma saída. Outras vezes, deitava-me na calçada só para manter o rosto bem próximo a elas, para que vissem a face do gigante que detinha suas vidas nas mãos, para que soubessem que eram insignificantes, e que estavam ali por sua insignificância.

Aquele prolongamento da fantasia do seriado não me despertava sentimento de satisfação pessoal. Era somente uma questão de poder comprovar, materialmente, que existia algo mais complexo no emaranhado de tamanhos e de poderes, e que aquela minha atitude não era bizarra.

Quando o sol ameaçava aproximar-se dos meus cativeiros, eu cortava a muralha de água com dois filetes de tábuas e lhes concedia uma pequena saída. Porém, cansadas e convencidas de que não havia saída, quase todas já se mantinham paralisadas. Depois de rodearem o círculo por inteiro, de farejarem e sondarem, convencidas de que não havia saída, mantinham-se quietas à espera que a água dos círculos atenuasse naturalmente. Mas até disso eu me antecipava a elas e freqüentemente repunha água e aumentava ainda mais as muralhas. Nem sempre eu lhes concedia saídas.

Cortava as muralhas de água quando o sol ameaçava a sombra apenas pelo fato de que me incomodava também, e isso não me obrigava libertá-las. Deixava-as à mercê do tempo e da resignação que cada uma teria para esperar o momento de se libertar, e se tivesse que me afastar por alguma razão, ao voltar não procedia a novas buscas e não manifestava raiva alguma por haverem se libertado. Tinha um conhecimento detalhado do território e sabia onde se encontravam quando fosse preciso fazer novas capturas.

Creio que desenvolvi este hábito de prender as formigas apenas para prolongar as aventuras do seriado, e como forma de compensação de uma piedade que me incomodava, ou simplesmente como um laboratório infantil para poder provar que, por mais insignificantes que fossem os pequeninos, eles existiam e sempre haveriam de sobreviver. E quaisquer que fossem as perversidades e as perseguições mais tenazes a eles impostas, uma lei natural da vida os concederia o benefício da existência. E quanto mais acossados e impelidos para o sofrimento, a vida reservaria ainda mais atalhos e recriaria neles uma substância necessária à existência, por mais inconsistentes que fossem essas circunstâncias.

E se vem sendo assim desde o princípio, apenas materializei, naquela época, uma ingenuidade infantil para que ficasse provado que a insignificância não reside no tamanho da vida de cada um, e de que insignificante é a inobservância de um verdadeiro sentido para existir, e que pelo menos uma vez na vida fomos semelhantes aos pequeninos e às formigas, ou que nem tudo é uma terra de gigantes.

Espero que as minhas formigas não hajam nutrido, por mim, naqueles tempos, sentimentos ruins, porque todos sabem que é preciso resistir, sempre, e que a verdadeira magia de tudo está em saber definir, ainda cedo, o papel que caberá a cada um. Que quem sobreviver aos círculos de água e aos labirintos da verdadeira terra de gigantes, sempre encontrará uma saída, mesmo que esta não lhe seja facilitada.

 

ANTONIO MENEZES 2007

 
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